Maurício Cintrão - Cronista crônico

15/03/2005 09:56
Mulher invisível

Amiga, se você está naquela fase em que nem peão de obra assobia, tenha calma, não está invisível. É que chegou a sua vez de enfrentar a entressafra. Você está na muda. É passageiro, pode confiar.

Lembra da adolescência, das espinhas horrendas e do nariz que parecia maior que a cara? Foi muito pior. Porque você nem sabia se interessaria aos homens. Hoje, bem vividos os anos, sabe direitinho qual é seu poder de fogo. Neste momento, acontece o rearranjo das suas forças naturais. Seus jardins preparam novas espécies de flores para embelezar os caminhos de quem tiver a honra de vê-la passar. Nós, os homens, fomos educados a tratar você como senhora. Acabe com isso logo!

E não me venha com essa história de ter virado vovozinha ou loba-má. Você passa da desconfortável posição de presa à vantajosa situação de caçadora. Afinal, já sabe o que deseja. É só utilizar sua 'expertise' no encantamento do mundo. Para quê legar a meia dúzia de operários o direito de medir sua beleza? Você não é dançarina de show de calouros.

Vá à luta, assuma a dianteira. Não é hora de ser vista e virar alvo de assobios. Ser mais um bumbum rebolante na calçada não significa nada. Aoc ontrário, é até contraproducente. Aproveite das camuflagens dessa fase de mudanças e avance. Lance mão das armas apropriadas e saia a campo com determinação.

Mas não confunda. Não é para sair por aí gritando: "ô, gostosão!", a cada vez que passar por uma obra. Não, não, não! Use sua classe e seu charme para arrebentar os corações masculinos. Nós, os homens, desaprendemos a avaliar o mundo por meio dos instintos.

Seja professora, ensine. Salte da cristaleira social e deixe de ser um bibelô. Seja fêmea, avance. Seja mais mulher, esbalde-se. E quando menos esperar, ao invés de assobios você receberá, enfim, as flores que nunca mandaram.

enviada por blogcintrao



11/01/2005 17:26
Adesivo Sexual

Penso nos potenciais riscos representados por esse novo adesivo inventado nos Estados Unidos, para aumentar o apetite sexual das mulheres. Ainda está em experiência. Mas quando a mídia noticia essas descobertas é porque logo estarão disponíveis nas melhores casas do ramo. Não tenho nada contra, é bom destacar. Ao contrário, acho que as mulheres têm mais é que buscar sua alegria. Mas não consigo resistir à tentação da piada.

Imagine um dia em que tudo dá errado para o sujeito. Furou o acordo operacional que estava no papo. A Receita achou erro na declaração: 10 mil para pagar (e logo). O garçom tropeçou, girou, balançou e derrubou café no paletó Armani novinho. E na surfada internética de fim de tarde pelo Orkut, descobriu que seu melhor amigo dos tempos de movimento estudantil faz parte de uma comunidade de nome inequívoco: "Voltar à Direita".

Pois o cara que viveu esse caos vai para casa bombardeado. A caminho, só pensa em tomar um banho e dormir para ver se o dia acaba logo. Mas quando entra no hall, vê a sala à meia-luz, decorada com velas coloridas. Há cheiro de incenso indiano no ar. Olha para o sofá e vê a mulher sorrindo toda sensual em um corpete rendado vermelho. Desmaia e só acorda na UTI do hospital cardiológico.

Outra cena: a vida do casal andava meio desanimada. Ela resolve promover um choque heterodoxo. Manda as crianças para a casa da tia. Espera a costumeira hora da chegada dele e, minutos antes, aplica o adesivo. Fica mais acesa que estádio em noite de jogo. Ouve o barulho da porta, sai correndo para recepcioná-lo e nem dá tempo para o alô. Nua, salta sobre o "amore mio" derrubando-o sobre o carpete. Rasga suas roupas e só aí percebe que ele trouxe os pais para uma visitinha rápida.

E aquele encontro secreto na clínica para a Terceira Idade. O galã dos anos 20 já estava preparado e tomou seu Viagra. Só não contava que a companheira do quarto ao lado quisesse fazer uma supresinha, experimentando o novo adesivo. Em plena madrugada, o médico responsável foi chamado à instituição às pressas. Boquiaberto, receitou compressas com água boricada e doses cavalares de calmante.

Mais uma? Depois de uma relação-relâmpago, incendiária e fulminante, ele fala para ela: "querida, estou estranhando você". Ela responde suada e orgulhosa: "comprei o adesivo que aumenta o apetite sexual, você gostou?". Ele demora um pouco e responde todo cuidadoso: "adorei, mas... não dava para esperar sairmos do táxi?".

Antes de terminar, não custa nada pensar em um arroubo de paixão entre duas moças. E por que não? Até novela mostra a namorada da namorada! Pois então, chega lá um dia em que uma resolve colocar o adesivo. Sem saber, a outra também coloca. Quando se encontram, sai até faísca. Problema para o síndico do prédio que, no dia seguinte, não sabia explicar porque o quadro de luz do condomínio explodira. Problema também para a concessionária de energia que, dias depois e sem justificativa para o fonômeno, bancou as despesas de instalação de um quadro novo.

Sei lá, melhor eu parar ou você vai me chamar de desmancha prazeres.

Maurício Cintrão

(publicada no Valeparaibano hoje)
enviada por blogcintrao



04/01/2005 13:18
PARA CANTAR EM INGLÊS

Tenho vários defeitos. O mais grave deles, talvez, seja não falar nem escrever em inglês. Aliás, eu não entendo nada de inglês. Para falar a verdade, isso não faz falta nenhuma no meu dia-a-dia. Vivo em Português. Trabalho em Português. Amo em Português. Mas fico mordido de raiva quando gosto de uma música em língua inglesa e não consigo cantá-la. Morro de inveja dos amigos que cantarolam as estrofes igualzinho aos artistas. E isso não é de agora, vem desde pequeno, quando o pessoal ouvia Elvis e Beatles e eu boiava.

Lembro que naqueles tempos havia um curso transmitido pela TV Cultura, de São Paulo, em que as lições eram dadas em cima das letras de música. Puxa, como eram legais aquelas aulas. Caíam como uma luva para as minhas modestas ambições. Não quero saber inglês para fazer grandes negócios ou para escrever uma declaração de amor à Sharon Stone. Queria saber cantar em inglês, só isso.

O meu filho João Paulo resolve bem essas questões. Ele põe a música no driver do computador (aquele tocador de CD do micro) e canta do jeito dele, na base do iéis-bêibi-tchíqui-tchu-guéder. É bonito de ver. Ele gosta das músicas e acompanha como entende, imitando os sons. E se diverte. Sabe ouvindo o quê? The Beatles. Veja só que coisa. Ele curte Beatles e canta com eles na base do "tróbous-cróbous" como eu nunca tive coragem de fazer nem quando menino, muito menos depois de adulto. Não tenho a mesma coragem, definitivamente. Em público, ainda, nem pensar! Até faço isso sozinho de vez em quando, no banho, por exemplo. Só quando não tem ninguém em casa. E ainda canto baixinho para não dar bandeira.

Puxa, deveria ter um curso de inglês para quem deseja apenas cantar. Nada que implicasse em ficar repetindo dis-is-a-têibou ou gúdi-mórnin-títcher. Seria um curso para cantores frustrados como eu. Tenho certeza que existem outros candidatos a cantores, fãs dos Beatles e analfabetos em inglês como eu. Tem que haver!

Não me interessa entender ou traduzir as letras. Não, seria uma decepção. Já vi algumas versões de músicas de John e Paul. Fiquei horrorizado. Acho que deve ser como encontrar uma pessoa que você só conhece das salas de bate-papo da Internet. Não tem nada a ver com o que imaginava. "Rélpi-ai-nidi-sambóre" é lindo porque é "rélpi-ai-nidi-sambóre, ôô, iéis!". Nada de cultura, nada de ilustração. Eu quero apenas cantar igual ao disco, poxa! E não ria que é sério. Ninguém liga para um garoto que arrisca as primeiras melodias cantadas em um inglês de marciano, como o meu filho. Mas um velho como eu, ah!, seria motivo de gozação. Tenho certeza.

Imagine a cena. Eu aqui, escrevendo, ouvindo meu CD e murmurando um empolgado: "sânsin-in-de-uêi-chi-uuuuussss". O Gabriel, meu filho mais velho, que fala, lê, canta e escreve em inglês, olharia com aquela cara de John Wayne na frente de um apache e diria: "Tsk! Tsk! Por que você não aprende inglês de uma vez, heim, pai?". Ele não entenderia a resposta. Eu não quero aprender inglês. Eu só quero cantar os Beatles!

Maurício Cintrão
(publicada no Valeparaibano em 04/01/05)
enviada por blogcintrao



28/12/2004 12:28
Recado às gordinhas

Nesta época de calor, eu sempre mando recado às minhas amigas redondinhas. As mulheres não podem mais ceder à ditadura do "perca as gordurinhas urgentemente". É uma indignidade. Um desrespeito com todas as mulheres e, em especial, com as minhas amigas fofinhas. Ora, se o tempo ou a natureza ofereceram a você área extra de lazer, aproveite! Deixe o desespero do "emagreça já" para as neuróticas esculturais.

E isso não significa que eu considere neuróticas todas as mulheres sem curvas. Há magras e magras. As que me provocam arrepios de pavor são aquelas que transformam os cuidados com o corpo em guerra de guerrilha. Pior, normalmente se mordem de ódio quando uma gordinha passa feliz (para suspiros dos homens), sem ligar para os conceitos vietecongues de beleza a qualquer custo.

Ora, beleza não é questão de estética. Ou seja, mulher não tem que se encaixar em padrão da moda. Tem que ser mulher, isso sim. E para ser mulher, precisa estar de bem consigo mesma. Por isso, amiga gordinha, sugiro a você que ignore solenemente as propagandas de verão! Não aceite a chantagem indecente de spas, clínicas de emagrecimento e academias! Vá à praia do jeito que está. Não queira se transformar em um clone ajeitadinho de você mesma.

Continue fofinha, minha querida! Bobagem acreditar que emagrecendo ou perdendo gordurinhas você vai ficar melhor. Você já está ótima. Errados estão os que criticam as suas gostosuras. Errados estão aqueles que ditam a moda. Aliás, até onde sei, quem dita a moda não gosta muito de mulher. Portanto, não dê bola para as risadinhas. Rebole!

O problema pode estar bem próximo, eu sei. Pois se é assim, está na hora de decretar a sua libertação. O maridão reclamou dos pneuzinhos? Faça como minha amiga Mariazinha Cremasco. Fale: "Todo avião tem pneuzinhos". O namorado disse que você está gorda? Bata na hora: "Tem gente que gosta!". O candidato a namorado espantou-se com suas dobrinhas? Nem responda, arranje outro. Está assim de gente interessada nas gordinhas.

E, cá entre nós, preciso confessar que prefiro mulheres com maior área útil. Essa coisa de modelo-prancha serve apenas para os estilistas. Deixe as passarelas para as profissionais. Seja uma deliciosa amadora. Desfile sem medo o seu corpo cheio de curvinhas pelas praias, piscinas e balneários. Vença o preconceito e o lugar-comum. No final, você vai descobrir que muitos homens preferem as gordinhas.

Portanto, caríssima, o fundamental neste período é pegar aquele bronzeado e oferecer a você mesma a alegria e o prazer de se sentir inteira. O interesse dos atuais ou dos eventuais pretensos virá com a brisa da tarde. Levante a cabeça, arrebite o bumbum e assuma suas latitudes e longitudes com a dignidade de uma descobridora. Revele seus continentes. E se o parceiro não agüentar a pressão, ou resolver ter um acesso de colonialista nervoso, não dê bola. Eduque o coitadinho. Em casos mais graves, daqueles que não têm jeito mesmo, seja radical: deixe que algum aventureiro lance mão da Coroa. E declare sua independência.

Maurício Cintrão

(Texto publicado hoje no jornal Valeparaibano, de S. J. dos Campos)


enviada por blogcintrao






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)